Obsessão por comida e um
medo incontrolável de engordar. Conheça
melhor a anorexia e a bulimia.
- Elas não
sentem fome?
- O dia-a-dia
- Procure ajuda
Vivemos numa época de culto
ao corpo, em que a malhação e os
regimes fazem parte da vida da maioria das pessoas,
principalmente das mulheres. A busca pela boa forma
surge durante a adolescência, junto às
diversas inseguranças desta fase, se estendendo,
muitas vezes, pela vida adulta. Os pais devem ficar
atentos para que o medo de engordar não
se transforme em doença: entre 1% e 3% das
adolescentes sofrem de anorexia e a cada cem meninas,
cerca de sete apresentam bulimia.
"Atualmente os valores que
reforçariam a questão da força
interna, da individualidade e da preocupação
com os outros estão se transformando. Há um
enaltecimento da forma em detrimento do conteúdo" afirma
o Dr. Táki Athanassios Cordás, psiquiatra
especializado em transtornos alimentares psiquiatra,
Doutor e Mestre pelo Instituto de Psiquiatria do
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo. O padrão
familiar, a estrutura psicológica e alguns
fatores genéticos também se mostram
significativos no desenvolvimento dessas doenças,
que raramente atingem os homens.
Elas não sentem fome?
Quando se ouve falar nesses transtornos,
muitos pensam que as doentes simplesmente não
gostam de comida. Na verdade ocorre exatamente
o contrário: inicialmente elas sentem forme,
mas o medo de engordar transforma-se em algo incontrolável.
Submetem-se, assim, a inúmeras estratégias
para negar a fome, eliminar o que comeram e perder
peso.
As anoréxicas possuem ainda
uma visão distorcida do seu corpo e, ao
se olharem no espelho, mesmo que já estejam
retas e muito magras, se enxergam gordas. "O
distúrbio da imagem corporal é tão
impressionante que meninas com 30 ou 40 quilos,
ou seja, em grave estado de desnutrição,
com aparência cadavérica, descrevem-se
como tendo quadris enormes ou coxas muito grossas" conta
o Dr. Cordás.
O sofrimento de um pai
"Nossa filha Paula era uma
jovem normal, morena, alegre e bonita. Após
uma cirurgia para a redução das mamas,
começou a se gostar mais e isso nos trazia
muita satisfação. Paralelamente,
Paula iniciou um processo de anorexia, achando
que, se ficasse mais magra, poderia, quem sabe,
ser uma modelo no futuro. Durante um dia inteiro
se alimentava com uma cenoura, um pepino ou um
pedaço de melancia. Quando notamos que ela
estava perdendo peso muito rapidamente, procuramos
um psiquiatra amigo e ele iniciou um tratamento.
Ela continuava emagrecendo, e
em certa ocasião descobrimos que o pouco
que comia, ela devolvia (induzindo vômitos),
o que caracterizava também uma bulimia.
O médico queria internar nossa filha, mas
ela nos convenceu a trocar a internação
por um tratamento rigoroso em domicílio.
Sua alegação era de que não
poderia perder as provas do primeiro bimestre do
Direito, curso recém-iniciado.
O tratamento foi seguido à risca,
mas talvez tenha sido em vão. Paula tinha
o hábito de ficar na Internet ou vendo TV
até altas horas da noite, e nós tínhamos
de ir dormir por causa do trabalho no dia seguinte.
Tenho quase certeza de que ela ingeria os alimentos
na nossa frente e os devolvia na primeira oportunidade
que tivesse.
O certo é que no dia 20
de maio de 1999 ela não acordou mais. Na
noite anterior, tinha ido à faculdade e
chegado em casa por volta das 23h, muito feliz
e contente. A "causa mortis" possível
e não-confirmada foi uma hipoglicemia com
parada cardíaca. Hoje sei que, se tivéssemos
mais conhecimento sobre as doenças, talvez
Paula pudesse estar conosco para festejar seu aniversário
de 20 anos."
Carlos Alberto Peixoto, Dourados (MS). carlospeixoto@terra.com.br
O dia-a-dia
As anoréxicas em sua maioria
são mulheres dinâmicas, inteligentes
e bonitas. Passam o dia estudando, exercitam-se
incessantemente, param de menstruar e desenvolvem
rituais obsessivos relacionados à comida.
Escondem alimentos nos armários, banheiros
ou dentro das roupas, tudo para não terem
que comer. Em muitos casos adoram cozinhar e servir
comida para os outros ao mesmo tempo em que diminuem,
cada vez mais, o consumo de alimentos. Empregam
diversas técnicas para se pesar ou medir,
além de se olharem no espelho incessantemente,
procurando as "gordurinhas" que na verdade
não existem.
"Aos 14 anos comecei a me
interessar por atividades físicas e a capoeira
foi minha grande paixão. Passei a cortar
do meu cardápio refrigerantes, doces, frituras,
até chegar a uma alimentação
cheia de saladas e frutas. Fazia exercícios
todos os dias, levava uma vida perfeitamente saudável,
né?Todos que viam à distância
pensavam isso, mas quem estava perto já podia
notar que algo estava errado. Eu não me
permitia comer nada além do que achava ser
o correto, nem um pedaço de chocolate, um
picolé de fruta ou um brigadeiro. NADA" conta
Joyce Peu, de 21 anos, ainda em fase de tratamento.
As bulímicas entram, também,
em dietas rigorosas, exercitam-se excessivamente,
abusam de laxantes e de diuréticos ou ingerem
moderadores de apetite, porém fazem isso
para compensar o chamado "episódio
bulímico". Nesses momentos comem compulsivamente
alimentos muito calóricos, chegando a ingerir
até 20.000 calorias de uma só vez.
"Nessas ocasiões não
se importam com o gosto ou a textura do alimento.
Ingerem arroz doce, leite condensado, pizza, feijão,
batata, sorvete, tudo isso de pé, na cozinha
ou escondida, a qualquer hora" explica o psiquiatra.
O comportamento que mais chama a atenção,
presente em praticamente 95% dos casos de bulimia, é o
ato de forçar o vômito após
este episódio. Se não conseguem vomitar,
os doentes se sentem sujos por dentro e estufados.
Procure ajuda
O Dr. Táki Cordás
conta que as meninas que sofrem de anorexia geralmente
vão "na marra" ao consultório,
trazidas pelos pais contra sua vontade. Já as
bulímicas procuram tratamento voluntário,
pois se sentem mal, envergonhadas ou com medo. "Muitos
pais me ligam descrevendo sintomas de anorexia
em suas filhas e dizem que tentam conversar e convencê-las,
mas elas falam que estão bem, que não
querem ir ao médico. Eu explico que, no
caso da anorexia, é como se fosse uma criança
que não quer ir a um pediatra e está com
pneumonia: não há convencimento,
tem que tratar de qualquer forma" explica.
O apoio dos amigos e parentes
mais próximos neste momento é fundamental.
Todos devem colaborar, aprender a lidar com a pessoa
que está sofrendo e, caso seja necessário,
participar de uma terapia para a reorganização
da dinâmica familiar. O tratamento das doenças
engloba diversas áreas médicas, como
psiquiatria, endocrinologia e, em muitos casos,
a paciente deve ser internada. "No final esperamos
que a garota fique mais satisfeita com as suas
qualidades e possibilidades, se relacionando melhor
com amigos e familiares e aprendendo a lidar bem
com as questões do corpo e do peso" afirma
o psiquiatra.
"Faço minhas refeições
em outros lugares, pois ainda acho que se trouxer
comida pra dentro de casa, comerei tudo de uma
vez. Venho batalhando para voltar a ter prazer
na vida, a fazer as coisas que gosto com um pensamento
certo, não obsessivo. Tenho fé que
as coisas melhorarão aos poucos e que sairei
dessa mais fortalecida e confiante" conclui
Joyce Peu.
Para saber mais:
Anorexia
e bulimia. O que são? Como ajudar? de
Táki Athanassios Cordás. Editora
Artmed.
Sites na
Internet:
Hospital das Clínicas de São Paulo/Instituto de Psiquiatria
http://www.hcnet.usp.br/ipq/index.htm
Hospital de Clínicas de
Porto Alegre
www.hcpa.ufrgs.br/
CCA - Comedores Compulsivos Anônimos
E-mail: intergrupoccasp@ig.com.br
Instituto de Psiquiatria da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
http://acd.ufrj.br/ipub/
Portal da Anorexia
http://www.portaldaanorexia.hpg.ig.com.br/
Matérias Relacionadas:
Alimentação
Saudável
Fonte: site clickfilhos.com.br